A ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA NA PSICOTERAPIA

 

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USANDO AS CONSTELAÇÕES FAMILIARES COMO UM EXEMPLO

Há dois movimentos que conduzem ao conhecimento profundo. O primeiro traz para fora e liberta o que é ainda desconhecido, tentando apreender o seu mistério. Esta é a maneira da ciência, e nós sabemos quanto transformou, enriqueceu e contribuiu para a segurança das nossas vidas.

A segunda maneira é parar a nossa tentativa de agarrar a compreensão, e permite preferivelmente que a nossa atenção se torne alargada, até que vejamos o todo em vez de suas partes. O nosso olhar é preparado para ver a totalidade do que se nos apresenta de uma só vez. Se nós consentirmos este movimento interno, por exemplo quando olhamos uma paisagem, quando enfrentamos um problema ou uma tarefa, então podemos observar como o nosso campo visual está cheio e vazio ao mesmo tempo. Somente podemos tolerar tal riqueza se evitarmos olhar as partes individuais. Fazendo assim retiramo-nos para um espaço vazio, onde simplesmente descansamos e esperamos, e onde podemos conhecer a diversidade e a totalidade.

Eu chamo a este recolhimento interno de fenomenológico. Conduz a conhecimentos distintos do que qualquer inquérito agressivo nos poderia trazer. Ainda assim, os dois movimentos complementam-se. Apesar de tudo, na investigação científica necessitamos parar aqui e ali e dirigir a nossa atenção numa maior perspectiva; e mesmo os conhecimentos alcançados através do inquérito fenomenológico necessitam às vezes de ser examinados sob um ponto de vista específico.

A ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA

No inquérito fenomenológico temos que nos abrir até perceber uma variedade de fenómenos sem julgar ou focalizar num qualquer ponto em particular. Este tipo de investigação requer um estado interno liberto de preconceitos, intenções e julgamentos, particularmente relacionados com os movimentos internos, tais como sensações, sentimentos ou ideias. A atenção é ao mesmo tempo dirigida e sem sentido, focalizada e aberta.

Um estado fenomenológico exige rapidez de acção e no entanto refreia a acção. Na dinâmica destes opostos a nossa percepção intensifica-se. Se se puder tolerar a tensão provocada por estes opostos, logo um contexto emerge, em que uma variedade de impressões parece organizar-se em torno de um tema central, talvez uma verdade mais profunda, e a etapa seguinte aparecerá.

AS CONSTELAÇÕES FAMILIARES

O potencial da aproximação fenomenológica e o que pede de nós é particularmente evidente nas constelações familiares. Se por um lado, o próprio fenómeno das constelações familiares é o resultado do inquérito fenomenológico, pelo outro lado o processo fenomenológico pode somente ocorrer numa postura de humildade e confiança nos variados fenómenos, em seus profundos conhecimentos, e na enorme experiência que nos permita adquirir.

O CLIENTE

O que acontece realmente na psicoterapia quando um cliente faz uma constelação da sua família?

Inicialmente selecciona representantes para cada membro da sua família no grupo de participantes. Por outras palavras, representantes para a sua mãe, pai, irmãos e também para si. É irrelevante quem ele escolhe para os vários membros, ou mesmo se ele selecciona membros do mesmo sexo. Até pode ser melhor se negligenciar completamente as parecenças externas e escolher os representantes sem nenhuma intenção em particular. Isto representa uma primeira etapa para recolher-se internamente, recebendo-se a si próprio, e o libertar-se de velhas imagens e ideias sobre a sua família.

O participante que escolhe um representante de acordo com a idade ou o tipo do corpo físico, não está verdadeiramente aberto ao que pode ser essencial e ainda permanecer invisível. Considerando factores externos, limita a força do que a constelação pode revelar, e a constelação pode já estar condenada ao fracasso. É por esta razão que pode mesmo ser melhor se for o próprio terapeuta a seleccionar os representantes para o cliente.

Uma vez que os representantes são seleccionados, o cliente coloca-os em relação uns aos outros no espaço. Durante esta etapa é útil se os guiar por detrás colocando ambas as mãos nos seus ombros, estando assim conectado energeticamente com eles quando os mover para o seu lugar. O cliente permanece centrado, detectando e escutando com cuidado o seu movimento interno, seguindo as suas orientações e impulsos subtis, até que chegue com eles a um lugar que sinta instintivamente que é o certo para o representante. Durante o processo de colocar o representante ele permanece em contacto não só com ele próprio e o representante, mas também com um campo maior.

Este campo cerca-o e pode guiá-lo, se estiver aberto a receber os sinais. Esta orientação subtil ajudar-lhe-á a encontrar o lugar apropriado para o representante. Segue o mesmo procedimento para colocar os outros representantes. Durante este tempo o cliente bloqueia-se a tudo o que o envolve e só retorna deste estado completamente focalizado depois que cada representante foi colocado no seu lugar. Às vezes é útil se depois andar em torno da constelação inteira e corrigir o que quer que pareça fora do lugar. Então volta a sentar-se.

É imediatamente visível se um cliente não está concentrado nesta postura de humildade e recolhimento interno. Neste caso ele pode tentar, por exemplo, sugerir ao representante alguma postura corporal, similar a criar uma escultura; ou pode mover-se rapidamente, ao ajustar os representantes, como se estivesse a seguir um retrato interno preconcebido; ou pode esquecer-se completamente de colocar um dos representantes; ou pode declarar que um determinado representante está no lugar certo embora o mesmo não se tenha movido. A maioria das constelações que não forem construídas de uma forma séria, concentrada, alcançarão um impasse ou terminarão em confusão.

O TERAPEUTA

Para que uma constelação seja bem sucedida, o terapeuta tem que se abstrair de todas as ideias e teorias. Ao retirar-se para um vácuo interno, e expondo-se inteiramente à constelação tal como ela é, reconhecerá imediatamente se um cliente estiver a tentar influenciar a constelação, ou se o cliente estiver a tentar fugir de uma realidade que esteja a começar a emergir, ajustando imagens pré-concebidas. Neste caso o terapeuta tenta ajudar o cliente a manter-se objectivo, e a abrir-se à experiência tal como ela se apresenta. Se isso não funcionar, perde-se a constelação.

OS REPRESENTANTES

A mesma postura de manter-se internamente afastado das intenções, medos, e ideias teóricas, é requerida também aos representantes. Durante o processo de ajuste é-lhes pedido para prestar muita atenção aos indícios subtis de alterações no seu estado físico ou emocional, por exemplo, se a sua frequência cardíaca mudar, ou se se sentirem atraídos para olhar para o chão, ou se se sentirem de repente mais leves ou mais pesados, irritados, ou zangados. Além disso, todas as imagens que possam chegar, sons ou palavras que se recordem, devem ser relatadas, mesmo se não fizerem sentido.

Por exemplo, havia um americano, que estava a aprender alemão, que ouviu repetidamente a frase, "Sagen Sie Albert," a atravessar a sua cabeça, durante uma constelação, enquanto representava um pai. Perguntou mais tarde ao cliente se o nome "Albert" lhe dizia qualquer coisa. "Sim, naturalmente" respondeu o cliente, "era o nome do meu pai e do meu avô, e o meu nome do meio também é Albert."

Um outro participante, que representava o filho de um homem que morrera num acidente de helicóptero, ouviu continuamente os sons do rotor de um helicóptero. Este filho tinha também sofrido uma vez um acidente de helicóptero, sendo ele o piloto e seu pai o passageiro, mas sobreviveram ambos ao acidente.

Obviamente, para que isto aconteça é necessário possuir sensibilidade e intuição, assim como uma capacidade voluntária de se abstrair dos motivos ulteriores para que este processo ocorra. O terapeuta tem que permanecer alerta para que os representantes não confundam as suas fantasias por percepções reais. Quanto menos informação prévia o terapeuta e os representantes tiverem sobre uma família, mais fácil é evitar esta tendência.

INFORMAÇÃO FENOMENOLÓGICA

A percepção fenomenológica é ajudada a maior parte das vezes, pedindo somente a informação mais essencial, e isso a ser feito, deve ser quando se está a fazer a constelação, não antes.

As perguntas essenciais são:

1 - Quem pertence à família?
2 - Há na família algum nado-morto, ou alguém que tenha morrido? Houve algum destino especial na família, por exemplo alguém com uma deficiência?
3 - Alguns dos pais ou avós viveu maritalmente com algum parceiro, foi casado antes, ou teve algum relacionamento anterior significativo?

Alguma questão adicional geralmente impede a abertura à informação fenomenal que emerge. Isto é verdadeiro tanto para o terapeuta como para os representantes. Esta é também a razão pela qual o terapeuta declina todas as conversações prévias com o cliente ou os questionários extensivos. Além disso, é melhor se o cliente permanecer silencioso durante a constelação, e que os representantes não façam ao cliente perguntas.

ATENÇÃO FOCALIZADA

Alguns representantes tendem a interpretar os sentimentos resultantes da formação da imagem da constelação, em vez de prestar atenção aos seus sentimentos internos imediatos. Um representante de um pai disse que se sentiu confrontado pelos seus filhos, simplesmente pelo facto de estarem posicionados directamente à sua frente. Quando analisou com cuidado como se estava sentindo, verificou que na realidade se sentiu muitíssimo bem. Ele tinha-se deixado influenciar pela imagem exterior da constelação em vez de confiar na sua percepção interna.

Às vezes, um representante retém a informação que considera chocante ou ofensiva; por exemplo, se o representante de um pai sentir uma atracção incestuosa pela sua filha, ou se o representante de uma mãe preferir que um dos seus filhos siga um outro membro da família na morte.

O terapeuta deve estar agudamente ciente de todos os sinais subtis do corpo, por exemplo, um sorriso esboçado, um pequeno movimento de endireitar-se, ou diversas pessoas que se aproximam espontaneamente. Se ele comunicar o que vê, então os representantes têm a possibilidade de reexaminar as suas próprias percepções.

Alguns representantes tentam dar explicações agradáveis numa tentativa de ajudar e consolar o cliente. Tais representantes geralmente não se integraram completamente no espírito e movimento da constelação e como tal, será melhor substitui-los de imediato.

OS SINAIS

O terapeuta deve ser audaz e sem nenhuns objectivos próprios, e também permanecer sempre cuidadoso e ciente da constelação inteira. Somente então, estará apto a evitar a confusão que poderá resultar das indicações superficiais e estar numa posição para fazer funcionar a constelação totalmente e em profundidade.

Há geralmente um sinal claro se uma constelação está no caminho certo ou não. Se o grupo dos observadores começar a ficar agitado, e a atenção esmorecer, a constelação não tem nenhuma possibilidade de funcionar. Então é melhor o terapeuta interromper. Isto permite que todos os participantes se centrem para recomeçar mais tarde. Às vezes pode haver observações úteis da audiência, mas devem ser puras observações. Interpretar e supor somente fazem aumentar a confusão. Se isto acontecer o terapeuta necessita parar também com os comentários e conduzir o grupo de volta a uma consciência séria, focalizada.

Eu falei aqui tão profundamente sobre o procedimento de formar constelações familiares e possíveis obstáculos, num esforço de deter a formação frívola ou descuidada de constelações. O processo de formar a família de alguém não deve ser feito frivolamente. Senão, a aproximação fenomenológica das constelações familiares será desacreditada totalmente. Nem pode uma constelação familiar ser feita por curiosidade, porque a seriedade e a força inerente serão sacrificadas.

O INÍCIO

Agora voltemos à constelação em si própria. A primeira decisão que o terapeuta tem que tomar é se vai formar a família actual ou a família de origem. A nossa experiência demostrou que é melhor começar com a família actual. Depois podem-se adicionar os membros da família de origem, que ainda exercem uma forte influência na actual família, mas mais tarde. Desta maneira influências opressivas ou conciliadoras podem ser vistas e sentidas através de diversas gerações. A única altura em que é aconselhável começar com a família de origem, é no caso de um destino muito difícil.

A decisão seguinte é quem incluir na constelação inicial. Começamos com a família mais próxima, o pai, a mãe e os filhos. Se houver uma criança nado-morta ou uma criança que morra cedo, é melhor esperar e adicioná-los mais tarde. Desta maneira é possível observar o efeito que a criança tem no resto da família. Regra geral, começa-se com somente algumas pessoas e permite-se que a constelação se desenvolva etapa a etapa, por si própria, adicionando outras pessoas conforme se mostrar necessário.

O PROCEDIMENTO

Uma vez que a constelação é montada, os representantes e o cliente necessitam de algum tempo para interiorizar, para sentir o seu efeito, e para confrontar as novas imagens que se apresentam. Os representantes têm frequentemente reacções espontâneas imediatas. Podem começar a tremer, levantar ou curvar a cabeça. Podem de repente começar a respirar pesadamente, ou olhar para alguém com um interesse especial, ou sentir como se estivessem apaixonados.

Alguns terapeutas tendem a perguntar demasiado rapidamente aos representantes como se estão a sentir, o que inibe este processo. Um terapeuta que faça perguntas aos representantes demasiado cedo, frequentemente confia demasiado nas suas próprias percepções antes que elas se tenham formado inteiramente. Isto pode causar a confusão nos outros representantes.

Primeiramente, o terapeuta necessita permitir que a imagem da constelação tenha um efeito sobre si próprio. Frequentemente, é completamente óbvio quem está sob pressão e quem está em perigo. Se alguém for colocado nas bordas exteriores da constelação, longe dos outros, ou meramente virado para o exterior, está claro que esta pessoa está a representar alguém que quer sair ou morrer. Sem solicitar nenhuma informação prévia de ninguém, o terapeuta pode simplesmente levar esse representante alguns passos para diante na direcção em que está a olhar, e prestar atenção ao efeito que este movimento tem nesse representante assim como nos outros.

Às vezes todos os representantes estão a olhar no mesmo sentido. Isto sugere claramente que estão a olhar para alguém que está na frente deles, alguém que foi esquecido ou excluído, por exemplo uma criança que morreu cedo, um namorado anterior, ou talvez o noivo anterior da mãe, que pode ter morrido na guerra. Então o terapeuta pergunta ao cliente se sabe quem esta pessoa poderia ser. Um representante será adicionado para essa pessoa antes que outro representante dê qualquer outra indicação.

Um outro exemplo é, quando a mãe é cercada pelos seus filhos de tal maneira, que parece que estão a tentar impedi-la de sair. O terapeuta pergunta imediatamente ao cliente, a respeito do que aconteceu na família de origem da mãe que poderia explicar o seu desejo de fuga. Então tenta encontrar a definição e resolução do problema dela primeiro, antes de prosseguir o trabalho com os outros representantes.

Progredindo desta maneira, o terapeuta desenvolve etapas subsequentes da constelação inicial, recolhendo informação adicional do cliente para a etapa seguinte, sem fazer nada mais, ou perguntar qualquer outra coisa à excepção do que necessita para esta etapa. A constelação permanece concentrada no que é essencial, e mantém a sua inerente tensão e intensidade. Cada etapa desnecessária, cada pergunta desnecessária, cada pessoa adicional que não é necessária para a solução, só diminui o foco da constelação e diminui a importância de pessoas e eventos.

CONSTELAÇÕES CONDENSADAS

Às vezes é suficiente ajustar somente dois representantes: por exemplo, uma mãe e seu filho que sofre de SIDA. Então o terapeuta pode mesmo abster-se totalmente de dar quaisquer instruções. Deixa que os próprios sentimentos e movimentos dos representantes surjam naturalmente através da dinâmica entre eles, sem palavras. Surge um drama não-verbal que revela não só os sentimentos dos seus participantes, mas também as etapas que ainda são possíveis e apropriadas para ambos.

O ESPAÇO

O efeito surpreendente da aproximação fenomenológica é mais óbvio aqui. A energia e a dinâmica que resultam da postura de reserva atenta do terapeuta e dos participantes, criam um espaço em que os relacionamentos e os enredos podem emergir e dirigir-se para a definição. Neste processo, parece que os representantes estão a ser influenciados por uma força externa poderosa que os dirige de alguma forma. As aproximações psicológicas e filosóficas estabelecidas não são suficientes para explicar os fenómenos que aqui podem ser observados.

O CAMPO

O primeiro fenómeno que observamos é que há obviamente uma dimensão da consciência que todos nós partilhamos. Todos nós participamos num campo comum. Os representantes frequentemente sentem e comportam-se como as pessoas reais que representam, embora nem o terapeuta nem eles mesmos recebam toda a informação, para além dos factos iniciais. O cliente frequentemente fica perplexo quando os representantes fazem o mesmo tipo de comentários que as pessoas reais, ou expressam os mesmos sentimentos ou sintomas. Isto sugere que os membros reais da família participam nesta dimensão do saber de alguma maneira. Neste nível, não há nenhuma informação que não seja acessível à alma.

Há pouco tempo, um amigo meu falou-me sobre uma mulher, cujo pai era judeu, mas que tinha omitido este facto dos seus filhos, e até mesmo os tinha baptizado a todos. Ela somente soube deste facto pouco tempo antes da sua morte. Na mesma altura soube que o seu pai tinha duas irmãs que morreram num campo de concentração. Esta mulher tinha tido diversas carreiras durante a sua vida. Primeiro trabalhou no campo, depois foi restauradora de antiguidades, e mais tarde tornou-se terapeuta, a sua profissão actual. À medida que pesquisava mais sobre a vida das suas tias falecidas, soube que uma tinha trabalhado no campo, e a outra tinha tido uma loja de antiguidades. Sem sabê-lo, tinha-as seguido a ambas, escolhendo o mesmo trabalho e ficou profundamente conectada com elas desta maneira.

Como explicar este fenómeno permanece um mistério. Rupert Sheldrake, um cientista inglês, provou em diversas experiências com cães que quando o seu dono está ausente, alguns cães detectam imediatamente o momento em que o seu dono decide voltar para casa. Podem detectar este momento mesmo que a viajem de regresso do seu dono tenha início num continente diferente. As distâncias parecem ser aqui irrelevantes. Isto prova que há algum campo da conexão que se estende para além do tempo e do espaço, em que o cão e o dono participam.

OS MORTOS

Nas constelações familiares tornou-se claro que o comportamento dos representantes reflecte algo sobre o comportamento e os destinos dos membros reais da família. Além disso parece claro que os membros da família estão conectados a outros membros que já morreram há muito tempo. Como é que alguém poderia explicar o facto de que dentro de uma família durante os últimos cem anos, houve três homens de diferentes gerações que se suicidaram com a idade de 27 anos, no dia 31 de Dezembro? Veio-se a saber, mais tarde, que o primeiro marido da bisavó do cliente tinha morrido no 31 de Dezembro, e que parece muito provável que a bisavó e o seu segundo marido foram os seus assassinos, e que o tinham envenenado.

A ALMA FAMILIAR

Parece que as forças que trabalham nas constelações se encontram para além dos limites da nossa normal compreensão. Para além da nossa tradicional compreensão da alma, parece haver uma alma maior que une os vivos e os mortos, ou uma "alma familiar" que une os membros vivos e falecidos da família. Podemos realmente ver a extensão da alma familiar quando observamos que somente determinados membros da família são afectados e podem enredar-se nos destinos dos outros membros da família. Os que incluem um sistema são:

1 - as crianças, incluindo os nados-mortos e as que morreram cedo;
2 - os pais e seus irmãos;
3 - os avós;
4 - às vezes um dos bisavós e, às vezes, antepassados mais antigos;
5 - todos - e isto é muito importante - quem proporcionou a vantagem dos membros acima referidos. Isto inclui, particularmente, parceiros ou sócios anteriores dos pais ou avós, assim como todos aqueles cujo infortúnio ou morte trouxe à família uma vantagem ou um ganho;
6 - vítimas de violência e de assassinato por quaisquer membros da família;

Gostaria de compartilhar algumas experiências que eu tive recentemente que têm a ver com os últimos dois grupos. Nas constelações com os descendentes daquelas que tinham adquirido grande riqueza, o que era de assinalar eram os destinos particularmente difíceis dos netos e bisnetos, que não poderiam ser explicados por acontecimentos isolados na família. Depois que os representantes tinham sido adicionados para as pessoas que tinham sofrido com a aquisição desta riqueza, tornou-se evidente de que o seu sacrifício continuou a ter um efeito na família sobre diversas gerações.

Havia, por exemplo, trabalhadores que morreram durante a construção do caminho de ferro ou na produção de óleo, cuja contribuição à prosperidade de seus patrões não foi reconhecida nem honrada.

Em muitas constelações que envolvem os descendentes de assassinos, por exemplo os executores durante o regime Nazi, estava claro que os netos e bisnetos quiseram encontrar-se no lado das vítimas, o que implica um risco de fortes tendências suicidas.

A solução foi similar para ambos os grupos. As vítimas devem ser olhadas e reconhecidas por todos os membros da família, que necessitam curvar-se-lhes e afligir-se por eles. Mais tarde, aqueles que beneficiaram originalmente, assim como os executores, sentem a necessidade de se encontrar com as vítimas, e os outros membros da família precisam de as deixar ir a esse plano. Somente então os descendentes serão aliviados.

Os membros da família comportam-se como se todos compartilhassem de uma alma comum, ou uma consciência comum, e como se todos eles estivessem sujeitos a uma autoridade comum mais elevada. Parece mesmo que esta autoridade segue determinadas leis e exigências.

O AMOR MAIOR

O primeiro fenómeno que nós aqui vemos é que os membros de uma família são mantidos unidos por esta alma maior, ou alma comum familiar. Isto é verdadeiro mesmo até ao ponto em que uma criança, cuja mãe ou pai morram cedo, sinta a necessidade de os seguir na morte. Mesmo os pais ou os avós querem ocasionalmente seguir o seu filho ou neto na morte, e podemos também observar esta dinâmica entre parceiros. Se um morrer, frequentemente o outro perde o desejo de viver.

BALANÇO E COMPENSAÇÃO

O segundo fenómeno por nós observado, é de que há um impulso para balançar ganhos e perdas através das gerações. Isto significa que alguém que lucrou através da despesa de outro, pagará por esse lucro com uma perda equivalente para compensar. Se aqueles que beneficiaram forem também os perpetradores, os seus descendentes são frequentemente os que acabam por pagar. A alma familiar usa-os no lugar dos seus antepassados, frequentemente sem qualquer deles estar ciente disso.

A ORDEM DE PRECEDÊNCIA

Por outras palavras, a alma familiar favorece aqueles que vieram depois sobre os que vieram antes. Isto representa um terceiro movimento, ou ordem natural da alma familiar. Alguém que nasceu depois está preparado para morrer por alguém que nasceu mais cedo no sistema, sacrificando a sua própria vida numa tentativa para impedir a morte de outro membro da família. Ou, o membro mais novo da família pode vir para expiar uma culpa não resolvida de alguém que veio mais cedo. Uma filha pode representar a anterior esposa do seu pai, e comporta-se com ele mais como um parceiro do que como sua filha. Em tal caso, torna-se em rival da sua mãe. Se a parceira anterior do pai foi tratada injustamente, a filha pode trazer à superfície os sentimentos dessa mulher relativamente a ambos os pais.

INTEGRIDADE

A quarta ordem da alma familiar respeita à integridade da família e exige que cada membro da família tenha o direito de lhe pertencer. Os membros mais recentes da família representam membros que foram excluídos ou esquecidos. Honrando o seu direito de pertencer à família e reintegrando-os na família abrindo um lugar para eles, re-estabelece-se a ordem na família.

Este é somente um breve sumário de alguns dos movimentos da alma da família e das suas ordens subjacentes. Os meus livros "Love's Hidden Symmetry" e "Acknowledging What Is" tratam deste tópico mais detalhadamente.

SOLUÇÕES

A pergunta permanece: que tipo de solução pode ser encontrada para um cliente? O que constitui aqui a aproximação fenomenológica?

O campo de visão fenomenológico varia de um estreito ponto de vista a uma ampla consciência, estende-se desde o que é próximo da mão às vistas distantes. Quer dizer, em vez de olhar somente para o cliente, o terapeuta olha também a família inteira; e em vez de olhar somente para o cliente e sua família, olha para além deles, para um campo maior dos fenómenos e para a alma maior que contem tudo isto. Um indivíduo e a sua família são limitados por um campo maior e afectados pelas forças de uma grande alma comum, que parece guiar e dirigi-los. Para além disto, parece claro que um problema só pode ser compreendido inteiramente, e as soluções só podem emergir, no contexto de uma mais ampla visão.

Se eu esperar ajudar a alma do cliente, eu devo olhar para a sua alma como sendo guiada pela alma da sua família. Mas se eu olhar somente para o cliente e para a sua família, posso reconhecer o que pode ter conduzido aos problemas, mas a solução não pode apresentar-se, até que uma conexão seja feita entre aquelas forças e dimensões da alma que se encontram além do indivíduo e da sua família. Estas dimensões estão para além da nossa influência. Nós podemos unicamente permanecer abertos e receptivos a elas. Quando nós nos focalizamos no essencial durante uma constelação, esta alma maior pode fornecer conhecimentos numa potencial imagem de cura, numa frase de cura, e numa possível etapa seguinte.

O terapeuta torna-se meramente aberto para ser tocado por esta alma maior, abstraindo-se de si próprio, e mantendo-se profundamente humilde para tudo o que teme, mesmo o medo de si próprio. Então de repente, uma imagem, uma palavra, ou uma frase podem emergir, guiando-o à etapa seguinte. Mas será sempre uma etapa através do escuro e do desconhecido. Somente no final se tornará claro se esta era a etapa certa, ou se terá ajudado realmente. Numa abordagem fenomenológica entramos em contacto com estas dimensões da alma, e isto é mais facilmente conseguido não-fazendo, do que, fazendo.

É a própria presença focalizada do terapeuta que ajuda o cliente a adoptar ele próprio uma atitude fenomenológica, e a receber o conhecimento profundo e a força que ela oferece. Frequentemente o cliente não pode carregar com o que está a ser revelado e fecha-se. O terapeuta tem que aceitar isso. O terapeuta não pode permitir envolver-se no destino do cliente e da sua família. Isto pode parecer vindo de um coração frio, mas a nossa experiência mostrou, que o conhecimento alcançado de outra maneira, permanece incompleto e empírico, tanto para o cliente como para o terapeuta.

Terminando, eu voltarei ao princípio, e à diferença entre a aproximação científica e o caminho fenomenológico para o conhecimento. Escrevi sobre isso uma história que compartilharei agora com vocês.

MEDIDA DUPLA

Um observador de detalhes perguntou a um profeta:
Como é que uma parte
Reconhece o seu lugar
Dentro do Todo?
E como é o conhecimento da parte
Diferente do saber
Da plenitude do Grande Todo?

O profeta respondeu:
As partes dispersas transformam-se no Todo
Rendendo-se à atracção
Exercida pelo seu centro,
Permitindo
Que as recolham.

A sua integridade torna-os
Bonitos e reais.
Ainda que, para nós, a sua integridade
seja tão óbvia, um delicado nada,
Um impulso
Para se aliar ao que está
Escondido na resistência.

Para conhecer o Todo, suas muitas partes não necessitam
Ser sabidas,
Ou faladas,
ou agarradas,
ou feitas,
ou mostradas.

Eu alcanço tudo o que está na cidade,
Atravessando uma única porta.
Eu golpeio o gongo,
Seu tom reverbera e
Ajusta-se pouco ao tom dos sinos.
Eu escolho uma maçã.
Eu prendo-a na minha mão.
Embora eu não saiba nenhum detalhe
Da sua origem, eu como.

O estudante objectou:
Quem quer que deseje a Verdade total
Também deve saber todas as suas partes.

O homem sábio respondeu:
Somente do que se passou
Podem todas as partes ser conhecidas.
A Verdade salta do Nada
Para o Ser.
É sempre nova,
Escondendo o seu objectivo em si própria,
Assim como a semente esconde a árvore.

Consequentemente, quem quer que hesite em agir,
Esperando por saber mais,
Esquece o que funciona,
Como se condenasse a temeridade.
Ele fez a moeda
Para negociar
E controla somente a floresta de fogo
Das tranças vivas.

O estudante pensou:
Deve haver mais
À resposta do Todo,
E perguntando
Pelo que pensou
Continuou falhando.

Os profetas dizem,
Que o Todo é como um barril de fresca cidra,
Doce e sombria.
Necessita de tempo para fermentar
E clarear.
Então aqueles loucos o bastante para a beberem,
Não bebericam, embriagam-se.

(Tradução de Graça Raimundo)