PODE A FAMÍLIA CAUSAR DOENÇAS?

O aparecimento de problemas e doenças no seio da família.

Pelo Dr. Bertold Ulsamer

Tradução de Cristina Inácio

 

Os conhecimentos realmente inovadores acerca das causas de doenças e problemas são de facto escassos. Com resultados muito interessantes, a perspectiva sistémica de Bert Hellinger que na actualidade está a suscitar um interesse insólito na Alemanha, tem ampliado consideravelmente a compreensão da psique humana.

Vejamos os problemas de Mónika, Robert e Marita para conhecer algumas das situações que frequentemente se nos deparam em seminários no âmbito da psicoterapia.

Desde há anos, Mónica vive repetidas fases de melancolia e depressão, chegando a pensar inclusivamente em suicídio durante várias semanas. Este estado de ânimo parece ter contagiado também a sua família, dado que agora já descobre sintomas semelhantes na sua irmã de 10 anos.

Robert, por seu lado, frequentemente se vê atormentado por sentimentos de culpa que aparecem pelos mais pequenos motivos na sua vida quotidiana. É incapaz de se defender contra eles e tão pouco encontra as razões de fundo por mais que nelas pense.

Marita, finalmente, uma e outra vez fracassa nas suas relações sentimentais. Se bem que no início tem muito êxito com os homens, nunca desenvolve uma relação duradoura e estável. Assim, observa com inveja as suas antigas companheiras de turma que há tempo encontraram os seus parceiros e puderam formar os seus lares. Quando aparecerá o homem dos seus sonhos?

Alguém que esteja muito preocupado com um problema procura as suas causas; procura uma explicação nas difíceis experiências do presente e do passado, desde a recente perda do seu posto de trabalho até às vivências traumáticas da sua infância. Muitas vezes encontra o que buscava, no entanto, por vezes, não. Nem Monika, nem Robert, nem Marita encontraram explicações nas circunstâncias das suas próprias vidas:

Os três cresceram em situações semelhantes às dos seus conterrâneos e vivem em circunstâncias idênticas. De onde provem, portanto a sua má sorte? Estaria, por acaso, já registada nos seus genes?

A perspectiva de Bert Hellinger vai para além da história pessoal, abrindo uma porta a um novo espaço, ao espaço da história familiar. Baseando-se na sua experiência terapêutica de décadas, Hellinger descobriu relações surpreendentes entre o passado e o presente. Em grande parte, as causas dos problemas remontam a gerações anteriores. E toda a família é afectada, incluindo nós próprios (muitas vezes sem o sentir ou sem o saber). Assim o sofrimento e a culpa são transmitidos de geração em geração. Tudo gira ao redor da morte, da injustiça, dos golpes deferidos pelo destino, do amor e das relações humanas. Assim, por exemplo, qualquer membro esquecido ou excluído é representado por outro membro que nasce posteriormente no mesmo sistema familiar, repetindo-se a sua sorte. Ao referir-se a estas partes inconscientes que nos unem, Hellinger usa a palavra «alma».

A alma procura que os valores, comportamentos e destinos dos nossos antepassados continuem a actuar, vibrando e buscando a sua realização através de nós próprios. Esta lealdade é um valor supremo. Cada um assume o papel necessário ao sistema familiar, experimentando uma profunda satisfação interior. Assim, a morte tem uma influência extraordinária, sobretudo a morte vivida como um facto chocante, por exemplo, ao tratar-se de uma criança, ou de uma pessoa jovem, ou quando sucede de uma forma violenta.

Monika teve na sua família dois irmãos falecidos em tenra idade. Quando Mónica tinha três anos o seu irmão de cinco morreu num acidente. No início das suas investigações, descobre também que a primeira filha dos seus pais nascera morta; esta irmã nunca fora referida ficando assim praticamente esquecida.

Quando um filho morre, o impacto sobre os pais e irmãos é considerável. Ás vezes, sobretudo ao tratar-se de um primeiro filho, os pais não assimilam esta morte sem guardar a dor nos seus corações. Também os irmãos se sentem chocados e de alguma forma culpados. Eles prosseguem com a sua vida apesar do seu irmão (ou irmã) ter morrido. Em consequência, frequentemente se sentem atraídos pela morte já que desejam estar ali onde os seus irmãos se encontram: “Sigo-te” (esta frase expressa a sua tendência para a morte, tendência para a qual não estão conscientes).

No caso de Monika esta tendência expressa-se através da melancolia, desinteresse pela vida e ideias suicidas. Este efeito dá-se ainda que Monika não tenha conhecido a sua irmã morta, nem nunca tenha ouvido falar dela conscientemente. Tal morte, não obstante, causa profundas feridas emocionais nos seus pais. Com a sua sensibilidade os outros filhos percebem estas vibrações e reagem em consequência.

É esta tendência para a morte que desencadeia muitas das doenças graves. A vontade de viver está debilitada e o corpo reage com doenças. Alguns que se sintam atraídos pela morte tomam o caminho dos excessos e das drogas. Outros ainda sentem predilecção pelos desportos perigosos expondo-se dessa forma ao risco de morte. Por isso, o condutor que tenha morrido, mais do que por inconsciência, terá sucumbido à força atractiva deste “Sigo-te”. Mas esta tendência ainda vai mais longe, alcançando inclusivamente gerações posteriores. Os filhos apercebem-se dela nos seus pais, e no seu intimo surge outra frase: “Antes eu que tu”.

O Filho prefere morrer em vez do pai ou da mãe. Estes filhos sentem-se inspirados por uma crença mágica, pensando que poderiam assumir a sorte fatal em lugar dos seus pais. Assim a filha de Monika quisera assumir o sofrimento e a morte no lugar da sua mãe, acabando por cair em depressão.

Robert por diversas vezes se sente atormentado por sentimentos de culpa para os quais desconhece qualquer causa. Também os seus sentimentos se explicam pelo vínculo da família através das gerações, já que outra lei vigente no seio da família é a seguinte: Sentimentos importantes que foram reprimidos por um membro da família, serão adoptados e vividos por outro membro posteriormente.

Acerca deste fenómeno citaremos um exemplo referido por Bert Hellinger noutro contexto:

Um casal participava num grupo. Todos os participantes se aperceberam da excessiva e inexplicável agressividade com que a mulher muitas vezes reagia ao seu marido. Hellinger perguntou-lhe: “Que mulher, no seu sistema familiar, esteve justificadamente aborrecida com o seu marido?”. A mulher respondeu: “A minha avó. Ela sim teve motivos para estar aborrecida. O seu marido, meu avô, maltratava-a e humilhava-a repetidamente. Uma vez, diante de todos os convidados, agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a pela sala do restaurante.”

Esta avó reprimira a sua cólera, pelo que este sentimento parece ter pairado pelo sistema familiar buscando alguém que o vivesse. Finalmente a neta adopta a cólera reprimida da avó, sentindo-a continuamente e dirigindo-a contra o seu próprio marido, neste caso inocente.

Portanto, se a pergunta a Robert fosse: ”Que homem, na sua família, teve motivos reais para se sentir culpado?”. A Robert vem-lhe á mente que o seu pai voltou a casar-se aparentemente esquecendo-se por completo da primeira mulher. Robert descobre que ele vive os sentimentos que o seu pai reprimiu.

A ordem que reina nas famílias procura que toda a injustiça seja expiada. Portanto uma das perguntas importantes será: Houve algum tipo de injustiça ou de culpa na família? Assim, por exemplo, uma família rural viverá como injustiça o facto de não se repetir a sucessão, quer dizer, que não seja o primogénito a herdar os bens mas sim o seu irmão mais novo. Em tais casos esses bens poderão “trazer má sorte”.

Um factor especifico que afecta a estabilidade de uma família é um assassinato cometido por um dos seus membros. Um acto assim não pode ser esquecido sem requerer a sua expiação. O homicida perderia o direito de pertencer à família e deveria abandoná-la. Caso contrário os filhos e outros membros da família nascidos posteriormente ver-se-ão implicados na culpa. Em tais casos, frequentemente se produzem mais assassinatos e suicídios na primeira ou segunda geração seguinte. Assim, por exemplo, na Alemanha a culpa do Terceiro Reich reaparece várias vezes na família.

No caso de Marita verificam-se outro tipo de implicações no destino familiar que aparecem com frequência. Apesar do seu inegável êxito com o sexo oposto, todas as suas relações amorosas acabavam por fracassar. Qual seria a razão de fundo ?

Uma relação amorosa tem boas possibilidades de êxito quando ambos os membros são fiáveis e suficientemente maduros para, em dado momento, formar uma família e cumprir o papel de mãe ou de pai. Para ele é necessário que (falando num sentido figurado) a mãe se encontre por trás da mulher e o pai por trás do marido. Se esta relação está perturbada também a capacidade de estabelecer uma relação e um vínculo se encontrará perturbada.

Uma causa sistémica habitual deste transtorno tem origem no passado dos pais: a mãe e o pai tiveram uma relação vinculante antes de se casarem, por exemplo um grande amor, um compromisso ou um casamento. Esta primeira relação também fará parte do sistema, dado que outra lei da família refere que também fará parte do sistema aquele que ao sair der lugar a outro. Se esta pessoa é esquecida (como ocorre em muitas famílias), será representado por um filho.

Assim, o pai de Marita esteve comprometido antes do seu matrimónio e separou-se para se casar com a mãe de Marita. Na família nunca ninguém falou acerca desta mulher, o tema é demasiado delicado. Marita representa a noiva anterior do seu pai sem que ninguém o saiba ou possa prever. Por isso, desde o principio foi a preferida do Papá (como representante do seu primeiro amor). Com a sua mãe, pelo contrário, nunca se entendeu muito bem, já que inconscientemente percebia a rivalidade. Como resultado desta situação, Marita sabe muito bem como jogar com os homens e ganhar-lhes. Agora recuperando, apesar de permanecer agarrada ao campo de tensão entre o pai e a mãe, faltar-lhe-á a força feminina madura para um vínculo verdadeiro.

Aprofundando o suficiente esta abordagem até chegar ás raízes destas conexões, surge em evidencia um profundo amor original de filhos e pais. Os filhos amam de uma maneira cega e incondicional. Não só são dependentes e necessitados de amor, como a Psicologia afirmava até agora, como que os mesmos amam com um amor inconsciente, forte. Durante toda a sua vida permanecem profundamente unidos aos pais, dispostos inclusive a entregar as suas vidas pelos seus pais e família. Esta mesma lealdade leva os filhos a tomar a seu cargo o destino dos pais. Assim sucede, por exemplo, a um casal que viva uma relação infeliz. Os seus filhos dificilmente terão o valor e a força de serem felizes nas suas próprias relações. Nos seus corações seria como uma traição.

E isto aplica-se a todos os filhos. Superficialmente, o contacto entre filhos e pais pode ter-se rompido, ou inclusive pode existir uma relação de hostilidade. Mas também estes filhos estão ao serviço da família, cumprindo missões transmitidas de geração em geração.

É possível dissolver ou transformar estas conexões nefastas? Com este fim Bert Hellinger desenvolveu o tema das Constelações Familiares como uma ferramenta especifica.

Com a ajuda dos participantes de um grupo alguém configura a imagem da sua família. Configura, ou a sua família de origem, ou seja a família de onde provém, com os seus pais, irmãos e, em caso de necessidade, também membros de outras gerações anteriores, ou o sistema actual, isto é, a sua própria família com o cliente como marido (a cliente como mulher), o casal e os próprios filhos. Estando incluídas também os relacionamentos anteriores.
Cada um de nós tem no seu intimo a imagem de uma ordem na sua família. Na constelação esta imagem exterioriza-se e ganha vida. O cliente elege representantes para cada membro vivo ou morto de seu sistema, inclusive para a sua própria pessoa. Depois atribui a cada um deles um lugar e uma direcção para onde olhar num campo livre. Em todo este processo, no entanto, não se determina nenhuma postura nem nenhum sentimento concreto.

Muitas constelações evidenciam um grande número de tensões subliminares existentes no sistema que os representantes expressam. Assim, por exemplo, o representante de um filho ou de um pai que numa constelação é colocado à margem e olhando o vazio, apercebe-se da carga psicológica desta posição. Cada lugar tem a sua própria força, de maneira que qualquer pessoa que o ocupe terá percepções similares. Mas além da mera percepção, os representantes experimentam uma surpreendente variedade de sentimentos e relações na respectiva família O que ocupa o lugar de outra pessoa comunica as tensões percebidas nesse papel, tensões que se dissolvem assim que são descobertas e transmitidas. No trabalho concreto aplicam-se uma série de frases simples com efeito curativo. Os efeitos sobre os demais participantes da constelação mostram se uma frase é acertada e produz uma transformação real.

Desta forma, é permitido experimentar diferentes soluções possíveis e comprovar o seu efeito. Um passo decisivo consiste em alterar as posições para assim alcançar uma ordem adequada, isto é, uma ordem em que cada participante se encontre confortável na sua posição. Frequentemente a ordem para uma família significa que os pais se encontram em frente dos filhos, ligeiramente inclinados. Os filhos, por sua vez, formam um semi círculo no qual o filho mais velho ocupa o primeiro lugar, e depois os outros, por ordem de idades. Neste âmbito resulta especialmente benéfico que os até agora esquecidos ou excluídos recebam também o lugar que lhes corresponde.

Também a filha que morreu à nascença obtém agora o lugar que lhe corresponde, ao lados dos irmãos de Monika. É como se fosse tapado um buraco negro no seu interior. A representante de Monika expressa o seu respeito perante esta irmã com reverência, pronunciando a seguinte frase curativa :”Por favor, olha-me com carinho”.

Para Robert, que vivia os sentimentos de culpa que o seu pai tinha reprimido, são outras as frases libertadoras. Ele posiciona-se em frente ao representante do seu pai e diz-lhe: “Tem sido o teu sentimento de culpa que tenho levado durante tanto tempo. Por favor, volta a levá-lo tu”.

Na constelação de Marita foi especialmente importante que a noiva anterior do seu pai, até então excluída, fosse introduzida na configuração do sistema de origem. De repente torna-se claro a quem se dirigem realmente os sentimentos do pai e a filha fica aliviada. Assim podem voltar inteiramente ao papel de pai e filha e, desde essa posição, procurar um novo contacto com a mãe.
No final da constelação, o participante que configurou o seu sistema ocupa o lugar do seu representante. Até esse momento tem estado a observar a história da sua família de fora, com a devida distância, num processo que pode ter durado quinze minutos ou inclusive toda uma hora. Muitos aspectos terão sido esclarecidos. Assim, pois, interioriza com todos os seus sentidos a nova imagem e ordem.

Como preparação para este tipo de trabalho recomenda-se investigar na própria família, perguntando aos pais , tios e avós pelos acontecimentos marcantes.
Estas seriam as perguntas mais importantes para aclarar factos decisivos do passado: “Houve casos de morte, recentes na família ? Entre os irmãos ? Da parte do pai ou da mãe ? Houve injustiça ou culpa ? Infortúnios ? Houve algum compromisso anterior por parte do pai ou da mãe ?”

A rede de vínculos que une a família torna-se visível numa constelação familiar. O que ocorre e se mantém por amor, só por amor pode encontrar a solução. Esta atmosfera constitui a base necessária para dissolver velhos enredos e implicações funestas. Finalmente é encontrado um amor e uma união mais maduros, que constituem um passo para uma nova ordem em que cada um recebe um novo lugar. Assim é possível dissolver tensões antiquíssimas, perpetuadas de geração em geração, para dar lugar a uma vida futura mais independente.